sábado, fevereiro 23, 2008

Fidel Castro e o Socialismo de ocasião

Durante esta semana que passou, o fato mais marcante foi a publicação da carta escrita por Fidel Castro - que você pode ler no post abaixo – na qual o eterno guerrilheiro revolucionário afirma estar fora da disputa pelo comando da ilha. A retirada de Fidel é o marco final de sua guerra pessoal contra os Estados Unidos, quando depois de resistir a todo tipo de atentados contra sua vida (fala-se em 33, muitos dos quais, confessadamente, praticados a mando da CIA), o famoso embargo criado pelo presidente Dwight Eisenhower, e intensificado por John Kennedy, a queda do Muro de Berlim, ao desmoronamento da URSS, impõe finalmente, uma dura derrota à mais poderosa nação da história contemporânea. Fidel só não conseguiu resistir a um inimigo ainda mais poderoso: o tempo!

Bom, como se pode ver pelo parágrafo anterior, falar de Fidel e sua Revolução, sem mencionar os Estados Unidos é tarefa quase impossível, principalmente, porque os norte-americanos foram os principais responsáveis, não só pela revolução ter ocorrido, como principalmente, por ter assumido, ainda que tardiamente, caráter socialista. A meu ver, Fidel, ao contrário de Che Guevara e seu irmão Raúl, não era verdadeiramente socialista, o Socialismo foi o único caminho possível de ser trilhado pelo povo cubano, quando, liderados por Fidel, se deram conta de que os americanos lhe eram totalmente hostis. Note que a revolução cubana somente se assumiu socialista, após os diversos atos praticados pelos Estados Unidos, com os quais restou demonstrado que a única super potência ocidental não lhe daria trégua, sobrando-lhes como alternativa, cair nos braços dos soviéticos, que adoraram a idéia de poder contar com um aliado tão próximo de seu principal inimigo.

Sobre a Revolução Cubana, um esclarecimento de suma importância precisa ser feito: ao longo dos anos, Fidel foi sempre muito criticado em razão da falta de liberdade de imprensa, de liberdades individuais ou de perseguições políticas, porém ao tratarmos deste tema, novamente, é preciso trazer ao debate o nome "Estados Unidos da América". Não se pode esquecer que Cuba, após a revolução de 1959, sempre viveu em constante estado de alerta, diante da sempre presente ameaça de um ataque. Acredito inclusive, que este, dentre outros obviamente, foi o motivo que levou Marx e mais tarde, Trótsky, a defender a idéia de que o comunismo somente poderia ser atingido de forma global, ou seja, com todos os países do mundo seguindo no mesmo sentido - em detrimento da concepção defendida por Stalin, que era o famoso “socialismo em um só país”, concepão esta que seria uma forma de garantir uma coexistência pacífica com as potências ocidentais. Digo isto pois, qualquer país para se tornar socialista deve se colocar contra os interesses das grandes potências, gerando um eterno estado de alerta, diante de uma possível reação contrária, a qual poderia ocasionar até mesmo, a invasão de seu território. Cuba, especificamente, soube o que é enfrentar esta ameaça pairando no ar o tempo inteiro, uma vez que desde a derrocada de Fulgêncio Batista foi pressionada, não só psicologicamente, como fisicamente por seu vizinho, a invasão da Baía dos Porcos nos serve de ilustração. Isto é, sempre ficou aquele clima pesado, diante da possibilidade de uma nova e mais devastadora invasão americana, que se algum dia ocorresse de forma efetiva, poderia pôr fim rapidamente ao projeto de reconstrução do pequeno país. Assim, se muita coisa feita em Cuba, ainda não se justifica, as diversas execuções de opositores, por exemplo, ao menos se explica.

Por isso, eu pegunto: como se admitir oposição, se esta pode se aliar a um inimigo tão poderoso?

Apesar disso, tenho comigo que Fidel Castro (sem sombra de dúvidas, o principal nome político do pós-guerra), certamente, nunca quis ser inimigo dos EUA, não só pela força política militar econômica deste país, mas especialmente pela proximidade entre ambos. Assim, diante de seu atual estado de saúde que deve obrigá-lo a dialogar diariamente com a Morte, ele enxerga na provável vitória de um candidato democrata nas próximas eleições americanas, a chance de fazer com que seu país possa ter o embargo aliviado, sem precisar abrir mão de sua revolução, abrindo espaço para líderes mais jovens e menos rejeitados pelos EUA, para que estes possam manter alguns resquícios do regime instaurado em Cuba após a derrubada do pró-americano Batista. Sua saída, deverá ser benéfica ao país que, apesar de ostentar índices sociais invejáveis, sofre com um desabastecimento crônico, aliviado nos últimos anos pelas mãos de Hugo Chávez.

Outra hora, volto a tocar no assunto.

O vídeo lá de cima é a primeira parte de um documentário produzido por Oliver Stone, sobre Fidel Castro, no total são 12 partes que você poder encontrar, facilmente, no You Tube.

3 comentários:

Cássio Augusto disse...

Caro Omar... o documentário de Oliver Stone é muito bom... tenho uma cópia em DVD... aliás... o Canal Futura exibiu a primeira parte de um doc interessante hj... a segunda será neste domingo às 20:30!!!

Tbém acho que Fidel ñ era socialista, mas sim que as necessidades da ilha o levaram a isso!!!

Belo texto... e obrigado pela dica sobre meu texto em comunidade do Orkut!!!

Caco disse...

Cuba é mesmo um caso à parte - quase cenário de novela do Aguinaldo Silva.

Mas acho este prognóstico de aproximação com os Estados Unidos bem interessante e provável, principalmente se o Obama chegar lá. Fidel ainda faria um link magnânimo para a abertura do país.

Dorian disse...

Omar,

Fidel é tão íntimo da mentira e da manipulação que não renunciou ao cargo de líder do Partido Comunista que por dispositivo constitucional (!) é quem manda na ilha.